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Comunidades · Cultura

Projeto leva instrumentos musicais a jovens da Maré, no Rio

Uma iniciativa quer formar novos músicos em comunidades do Rio. A Reportagem foi conhecer o ensaio que acontece num galpão cedido pela associação de moradores.

Por Sandra Peixoto, no Rio de Janeiro · Publicado em 28 de junho de 2026 · 5 min de leitura

Num galpão cedido pela associação de moradores da Maré, no Rio de Janeiro, doze jovens ensaiam. Há trompete, saxofone, percussão, teclado. Quem conduz é um músico profissional que cresceu no bairro e voltou para ensinar. O projeto, criado há dois anos, quer formar novos músicos — e, no caminho, abrir uma alternativa à lógica do tráfico para os jovens da comunidade.

A sala de ensaio é simples. Cadeiras doadas, estantes improvisadas, instrumentos comprados com vaquinha e parcerias. Mas o som que sai de lá já impressiona. Em apresentações recentes em equipamentos públicos do Rio, o grupo arrancou aplauso de plateia que não esperava encontrar, numa comunidade, uma formação musical daquela qualidade.

Como nasceu

O idealizador é Marcos, trompetista de trinta e oito anos. Ele aprendeu música criança, num projeto social da própria Maré, e seguiu carreira profissional. Quando pôde, voltou. "Devo o que sou a um projeto que me deu instrumento quando eu era menino. Não podia só receber. Tinha que devolver", conta.

Música não salva ninguém sozinha. Mas dá um lugar onde estar quando tudo o resto parece fechado.

A frase capta o sentido do projeto. A música não é solução mágica para problemas sociais complexos. Mas oferece, a quem participa, uma pertença, uma disciplina, um grupo. Para jovens em contexto de vulnerabilidade, isso pode ser diferença decisiva.

O método

O ensino é gratuito e aberto. Não há pré-requisito, não há prova de seleção. Quem chega, fica — desde que respeite o combinado: assiduidade, respeito aos colegas, compromisso com o ensaio. O instrumento é emprestado. A devolução só é pedida se o aluno desistir sem aviso.

O grupo ensaia três vezes por semana. Há aula de teoria, prática em conjunto e apresentações. Os alunos mais antigos ajudam a ensinar os mais novos, criando uma cadeia de transmissão que, para Marcos, é o coração do projeto. "Não quero formar só músico. Quero formar quem ensina. Aí a coisa se sustenta."

O desafio da continuidade

Como toda iniciativa comunitária, o projeto vive no fio da navalha. Não tem verba fixa. Depende de doação, parceria e do trabalho voluntário de Marcos e de mais dois músicos. Há meses em que faltam recursos para manter o galpão. Há instrumentos quebrados sem conserto. Há o risco, sempre presente, de o projeto acabar se a ajuda secar.

Apesar disso, Marcos segue. Para ele, a continuidade não vem de dinheiro, mas de gente. "Se amanhã eu não puder mais, tem gente formada pra seguir. Esse é o plano." Enquanto isso, toda semana, o som dos instrumentos enche o galpão da Maré. E, lá fora, uma nova geração descobre que existe vida para além do que a rua oferece.

Tags: culturariojuventude
SP
Sandra Peixoto

Correspondente do LeadBR no Rio. Cobre cultura e juventude em comunidades.