Projeto leva instrumentos musicais a jovens da Maré, no Rio
Uma iniciativa quer formar novos músicos em comunidades do Rio. A Reportagem foi conhecer o ensaio que acontece num galpão cedido pela associação de moradores.
Num galpão cedido pela associação de moradores da Maré, no Rio de Janeiro, doze jovens ensaiam. Há trompete, saxofone, percussão, teclado. Quem conduz é um músico profissional que cresceu no bairro e voltou para ensinar. O projeto, criado há dois anos, quer formar novos músicos — e, no caminho, abrir uma alternativa à lógica do tráfico para os jovens da comunidade.
A sala de ensaio é simples. Cadeiras doadas, estantes improvisadas, instrumentos comprados com vaquinha e parcerias. Mas o som que sai de lá já impressiona. Em apresentações recentes em equipamentos públicos do Rio, o grupo arrancou aplauso de plateia que não esperava encontrar, numa comunidade, uma formação musical daquela qualidade.
Como nasceu
O idealizador é Marcos, trompetista de trinta e oito anos. Ele aprendeu música criança, num projeto social da própria Maré, e seguiu carreira profissional. Quando pôde, voltou. "Devo o que sou a um projeto que me deu instrumento quando eu era menino. Não podia só receber. Tinha que devolver", conta.
Música não salva ninguém sozinha. Mas dá um lugar onde estar quando tudo o resto parece fechado.
A frase capta o sentido do projeto. A música não é solução mágica para problemas sociais complexos. Mas oferece, a quem participa, uma pertença, uma disciplina, um grupo. Para jovens em contexto de vulnerabilidade, isso pode ser diferença decisiva.
O método
O ensino é gratuito e aberto. Não há pré-requisito, não há prova de seleção. Quem chega, fica — desde que respeite o combinado: assiduidade, respeito aos colegas, compromisso com o ensaio. O instrumento é emprestado. A devolução só é pedida se o aluno desistir sem aviso.
O grupo ensaia três vezes por semana. Há aula de teoria, prática em conjunto e apresentações. Os alunos mais antigos ajudam a ensinar os mais novos, criando uma cadeia de transmissão que, para Marcos, é o coração do projeto. "Não quero formar só músico. Quero formar quem ensina. Aí a coisa se sustenta."
O desafio da continuidade
Como toda iniciativa comunitária, o projeto vive no fio da navalha. Não tem verba fixa. Depende de doação, parceria e do trabalho voluntário de Marcos e de mais dois músicos. Há meses em que faltam recursos para manter o galpão. Há instrumentos quebrados sem conserto. Há o risco, sempre presente, de o projeto acabar se a ajuda secar.
Apesar disso, Marcos segue. Para ele, a continuidade não vem de dinheiro, mas de gente. "Se amanhã eu não puder mais, tem gente formada pra seguir. Esse é o plano." Enquanto isso, toda semana, o som dos instrumentos enche o galpão da Maré. E, lá fora, uma nova geração descobre que existe vida para além do que a rua oferece.
Correspondente do LeadBR no Rio. Cobre cultura e juventude em comunidades.