Cooperativa de costura reabre em bairro de Recife
Um grupo de moradoras recuperou um galpão abandonado e o transformou em espaço de renda. A história da Cooperativa Lince mostra o que a comunidade faz quando o poder público não chega.
Dentro do galpão, na Rua do Limoeiro, o som das máquinas de costura substituiu o silêncio de mais de uma década. O espaço, no bairro de Casa Amarela, no Recife, esteve abandonado por quase doze anos. Foi ponto de uso de crack, depósito de entulho, motivo de medo. Hoje é sede da Cooperativa Lince, formada por oito mulheres do bairro, que produzem uniformes para pequenas empresas e costuram para a comunidade. A transformação demorou três anos. E começou com uma limpeza.
Maristela, costureira de cinquenta e quatro anos, lembra do dia em que decidiu ir até lá. "A gente falava do galpão há anos. Um dia eu cansei de falar. Fui lá e limpei", conta. Convocou cinco vizinhas. Arregaçaram, varreram, tiraram entulho durante um fim de semana inteiro. O dono do imóvel, que morava fora do estado, apareceu. Em vez de processar, topou ceder o espaço por uma quantia simbólica — desde que servisse para algo útil.
A ideia da cooperativa
Tendo o espaço, faltava o que fazer nele. A ideia de uma cooperativa de costura veio da própria história: quase todas sabiam costurar, tinham aprendido com mãe, tia ou vizinha. Costuravam para a família, para a igreja, para amigas. Ninguém tinha pensado na costura como renda formal. Começaram a pensar.
Não é só o dinheiro. É o respeito. Aqui eu sou alguém. Não sou só a mulher do fulano.
A frase é de Oneide, trinta e sete, que entrou na cooperativa há dois anos. Para ela, o ganho maior não foi financeiro — foi de dignidade. Hoje ela decide, junto com as outras, o rumo do negócio. Sai de uma relação de dependência e entrou em uma de cooperação.
Cada cooperada é sócia e decide em assembleia. A renda sobra após pagar tecido, manutenção e o aluguel simbólico. Não há patrão. A relação é regida pela Lei do Cooperativismo.
O primeiro contrato
O salto veio por acaso. Uma padaria do bairro precisava de uniformes para os funcionários. O dono conhecia Maristela. Pediu dezesseis aventais. A cooperativa entregou em duas semanas. O preço coube no orçamento da padaria; a qualidade surpreendeu. Vieram mais pedidos.
Hoje, três anos depois da limpeza, a Lince tem oito cooperadas fixas e uma fila de encomendas. As mulheres se dividem em turnos, distribuem tarefas, decidem juntas quanto cobrar. A renda não enriquece ninguém — cada uma tira, em média, um salário mínimo a mais por mês —, mas muda o que elas podem decidir. Quem paga a escola do filho. Quem deixa um marido que batia. Quem volta a estudar.
O que falta
A história tem lados menos bonitos. A cooperativa ainda não tem maquinário suficiente — três das oito máquinas são emprestadas. O contrato do galpão é informal, com risco de o dono pedir o espaço de volta. As cooperadas não têm acesso fácil a crédito, porque o sistema financeiro entende pouco de cooperativismo.
Também há o dilema clássico. Quando a cooperativa cresce, cresce a tentação de virar empresa — contratar, hierarquizar, profissionalizar. Maristela resiste. "Se virar empresa, volta a ter patrão. Aqui ninguém é patroa." O dilema é real e sem resposta fácil.
O que a história ensina
O que a história da Lince mostra, no fundo, é que a vizinhança resolve o que o Estado abandona. Não porque queira. Porque precisa. O galpão de Casa Amarela não virou cooperativa por projeto público. Virou porque oito mulheres cansaram de esperar.
Quando saí do galpão, no fim da tarde, as máquinas ainda batiam. Maristela me acompanhou até a porta. "Volte", disse. "Daqui a um ano a gente tá maior." Eu pretendo voltar. Histórias como essa não acabam — continuam, ponto a ponto, máquina a máquina.
Jornalista comunitária do LeadBR. Cobre cooperativas, bairros e movimentos populares.